ESTUDO.AQUECIMENTO PARA UMA GRANDE CORRIDA.
DESAFIOS CONTEPORANEOS AO MINISTÉRIO PASTORAL:
DESABAFO DE UM JOVEM PASTOR.
A relativização da verdade, mais intensificada nesse período da modernidade, produziu vários obstáculos que contrariam a disposição sincera de um pastor em cumprir seu chamado divino. Ainda mais no que diz respeito a fidelidade doutrinária, pois como foi defendido no artigo, “Uma das importantes realizações do Pacto de Lausanne foi a de estabelecer alguns dos principais contornos doutrinários da identidade evangélica. ( Os desafios do Pacto de Lausanne para a Igreja hoje – Júlio Paulo Tavares Zabatiero” . Resgatar a verdade em um mundo relativista eis o desafio.
Interessante que o surgimento de novas Igrejas acompanhou essa tendência relativista. Igrejas que querem apenas números, um pragmatismo louco e desenfreado. No meio disso tudo, se encontra um jovem pastor, com nobres sonhos, perspectivas, planos... Mas lidando com “ovelhas” que não querem apenas “o antigo alimento”, sim as novidades do mercado. Enquanto a Igreja de Jesus deveria ter uma identidade divina, hoje se assemelha ao mercado comercial de compra e venda, onde o mais esperto, o que barganha melhor, quem tem a melhor oferta, é quem “recebe” dádivas e recompensas divinas.
Há um grande risco de um jovem pastor, por causa das pressões internas e externas (desse novo movimento neopentecostal), se vender a esse propósito barato. Por outro lado, poucos são os “líderes e cristãos” que permanecem firmados na palavra de Deus e no propósito divino para Igreja, ou seja, um relacionamento sincero, sem barganha, honesto, com lutas e provações, por amor e sem interesses com Deus e as pessoas.
Infelizmente, a Igreja perdeu o sentido de missão nesse mundo contemporâneo. Percebe-se que muitos cristãos vivem um individualismo cego. Entendem que cumprir a vontade de Deus significa frequentar os cultos, cantar, entregar seu dízimo e participar da Escola Bíblica (catecismo, catecúmenos, o que for). Além disso, sentem-se orgulhosos, “grandes” quando conseguem enviar uma boa quantia de dinheiro para “missões”. Na realidade, ainda que não percebam, estão comprando sua salvação. A venda de indulgências está com roupagem nova nesses dias
Essas atitudes revelam cristãos que em vez de “ser”, preferem “fazer”, “entregar”. Por essa razão, a base do relacionamento é interesseira e medrosa. É necessário deixar bem claro que essas atitudes são necessárias, mas não são prioridades e não são prova de fidelidade a Deus.
O Pacto de Lausanne ainda afirma a integralidade da missão da Igreja: “todo o Evangelho, em todo o mundo, para o ser humano todo”. Infelizmente, há quem acredite que essa tarefa foi determinada a apenas algumas pessoas. Sobre isso afirma Jesus: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, Filho e Espírito Santo”.(Mateus 28:19), a responsabilidade é de todos. Uma análise aprofundada do termo “ide”, significa indo, isto é, o verdadeiro cristão proclama o amor de Jesus, sua morte e ressurreição, à medida que vive e se relaciona com as pessoas e não apenas em eventos pré-estabelecidos para esse fim.
O individualismo manchou a lente de muitos cristãos. Um bom pastor nessa ótica é o que me visita, que cuida de mim, que intercede por mim, que ora por mim, que prega o que EU quero ouvir. Músicas? As que dizem: “hoje o Meu milagre vai chegar...” ; “Olha pra Mim... que me enalteça”. As pessoas só pensam em si mesmas, em realizar suas vontades e sonhos. A igreja perdeu a visão de comunidade, de bem comum, felicidade para todos...
O grande desafio é romper essa visão, é mostrar a urgência da humanidade.
Nessa perspectiva salvação não traz apenas libertação do pecado – vida eterna ; mas libertação da indiferença; da opressão; da violência doméstica; dos maus tratos as crianças, etc. Vida eterna começa a partir do encontro com Cristo e é testificada através de uma vida conforme sua imagem e semelhança.
A vida de Jesus é o princípio e fim para toda obra, toda caridade, todo envolvimento com o próximo, para toda ação missionária, para a vida de todo cristão que quer levar Deus a sério. Ser fiel a Deus dentro da Igreja é fácil, o desafio é viver a vida cristã em todos os lugares e em todos os níveis.
A visão do Pacto de Lausanne é fundamental para o envolvimento da Igreja em missões. É necessário abandonar “os guetos eclesiásticos” e inserir na sociedade “não-cristã”. Chega de: “isso pode, não... isso não pode”. Enquanto muitos discutem em torno de leis mortas, sobre costumes, milhares de pessoas morrem sem experimentarem a maravilhosa graça de Jesus.
Na realidade, a Igreja precisa ser um lugar agradável, amável, gostoso e não um ambiente sombrio, legalista, prisioneiro... Gostaria de uma Igreja onde tenha liberdade de me expressar, de falar sem máscaras e falsidades, onde, quando eu errar, tenha a compreensão dos outros pecadores...
A igreja trocou a cruz pelo dólar; o serviço pelo marketing. Claro sem generalizar, mas o evangelicalismo brasileiro é vergonhoso, astuto e interesseiro. Creio que a igreja deva evangelizar, procurar o perdido, mas é necessário ensiná-lo que “O Deus de Israel – Eu Sou” não aceita negócios na casa do Pai.
Estou em crise, pois as pessoas amam uma pregação barata, um evangelho sem cruz, uma palavra que amacie o ego. Não querem ouvir a verdade, o evangelho puro e simples, com pedras e espinhos, lutas e provações, cruz e espada... Claro, com bênçãos, vitórias, conquistas. Todavia, não apenas.
Estou em crise pois não vejo a unidade, comunhão e amor narrado no livro de Atos no início da Igreja cristã. Ao contrário, tenho visto pastores se levantando contra pastores, traição entre os da comunidade, perseguição, competição, hipocrisia... onde não poderia existir.
Estou em crise porque a Igreja se tornou o lugar de semi-deuses, um local onde as pessoas precisam mudar sua forma de vestir, de andar, de pensar, de sentir, de viver... Nessa perspectiva, conversão é entendido como aderir um pacote de doutrinas e costumes da Instituição local, que na grande maioria é legalista e opressora.
Estou em crise pois não vejo mais cooperação, solidariedade, bom senso, infelizmente, ceder a vez, dar o lugar, abrir mão, são atitudes de outro planeta. Nessa sociedade competitiva, as Igrejas também estão em disputa.
Estou em crise porque as “grandes Igrejas” lutam entre si. Lindos templos são erguidos, grandes construções, multidões... enquanto há tanta desigualdade social, tanta fome, tanta miséria...
O que falar da disputa dos números? Como que um jovem pastor poderá sair da crise enquanto sua igreja vive vazia? O que adianta tanto trabalho, tanto esforço, se ao meu lado uma nova comunidade surge com grandes ofertas e arrasta os poucos que tenho?
Todavia, ainda que vivendo em crise, disposto a não continuar nesse modelo de ministério pastoral, não abandono meu Jesus, não negocio meus princípios (concordo com o que foi citado no pacto), não negocio o ministério que o Senhor me confiou. Prefiro, ficar nos bastidores, sem luzes, sem muito movimento, mas fiel, com minha consciência tranquila com meu coração em paz.
Louvo a Deus pois nem todo aquele que diz Senhor, Senhor entrará no reino de Deus.
Postado sobre autorização: Pr. Tiago da Silva Schwanz. Bacharel em Teologia e Pós Graduado em Ciências da Religião.
Pelo. Pr. Jonatas Egídio Schmetk. Bacharel Teologia e Mestre em Teologia.
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